Grupo Cáucaso

O Cáucaso já estava na minha lista de viagens havia algum tempo. A história, as diferentes tradições religiosas e o encontro de culturas despertavam a nossa curiosidade. Mas confesso que havia um motivo especial: a gastronomia. Eu queria conhecer a região também à mesa, provar seus pratos, seus vinhos e entender um pouco de cada povo por meio dos sabores.

Entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, o Cáucaso reúne paisagens montanhosas e povos muito ligados às próprias tradições. Antes de viajar, eu já imaginava o quanto teríamos para aprender. Ainda assim, nada me preparou para a sensação que tive logo na nossa primeira parada: o Azerbaijão.

Pela primeira vez na vida, cheguei a um aeroporto e me arrepiei inteiro. A beleza da construção, a limpeza e a hospitalidade já seriam suficientes para causar uma ótima primeira impressão. Mas havia algo mais, uma energia difícil de explicar. Senti como se já conhecesse aquele lugar, como se em alguma outra passagem pela vida eu tivesse vivido por aquelas bandas.

Baku continuou a me surpreender. Encontrei uma cidade limpa, organizada, com pessoas educadas e hospitaleiras, além de uma gastronomia deliciosa. Caminhar por ali era ver tempos diferentes convivendo na mesma paisagem: as ruas da cidade antiga, as mesquitas, os arranha-céus modernos e o circuito de Fórmula 1.

Essa mistura ficou ainda mais evidente quando conhecemos o Ateshgah, o Templo do Fogo. O lugar guarda a memória de tradições religiosas ligadas ao fogo, entre elas o zoroastrismo, no qual a chama simboliza luz e pureza. Estar ali me fez pensar em quantas pessoas, ao longo dos séculos, passaram pela região e encontraram naquele lugar um sentido espiritual. Era justamente esse encontro entre história, cultura e religião que tinha colocado o Cáucaso na nossa lista de desejos.

O fogo também nos levou a outra parte da história do país: o petróleo. Visitamos o local do poço de Bibi-Heybat, perfurado em 1846 e considerado um marco pioneiro da indústria petrolífera. Mais tarde, os irmãos Nobel teriam um papel importante no desenvolvimento dessa atividade em Baku.

Mas o que mais me chamou a atenção foi a impressão de que a riqueza do petróleo se refletia no cuidado com a cidade. Como visitante, vi espaços bem conservados, organização e uma sensação constante de segurança. Saí de Baku pensando no quanto faz diferença quando os recursos de um país parecem voltar em benefícios para as pessoas.

Na sequência, pegamos um voo para Tbilisi, capital da Geórgia. Eu já estava ansioso para conhecer o país. Sabia que encontraria muita história, uma gastronomia cheia de personalidade e, claro, vinho. A Geórgia cultiva mais de 500 variedades de uvas locais e tem uma tradição vinícola que atravessa milênios. Para quem gosta de descobrir um lugar também pelo que chega à mesa, era difícil não criar expectativas.

Mas a Geórgia guarda muito mais do que bons vinhos. Por toda parte, encontramos referências a Santa Nino, figura tão querida pelos georgianos e ligada à chegada do cristianismo ao país no século IV. Sua história aparece nas igrejas, nas tradições e até na relação entre a fé e a videira.

E então veio a parte que eu mais esperava: a viagem rumo à Cordilheira do Cáucaso. Seguimos pela famosa Estrada Militar Georgiana, deixando Tbilisi para trás enquanto a paisagem ganhava montanhas cada vez maiores. Chegamos a Kazbegi, também chamada Stepantsminda, e passamos a noite no Rooms Kazbegi. Da frente do hotel, a cordilheira parecia ocupar o horizonte inteiro. Era uma daquelas vistas que fazem a gente parar de falar por alguns minutos e simplesmente olhar, acompanhado de pessoas queridas e um vinho georgiano sentimos o dia acabar com os olhos atentos a essa obra de Deus. Para jantar, uma deliciosa truta local com legumes completou o dia.

No dia seguinte, seguimos para Gori, cidade onde nasceu Josef Stalin. Estar ali trouxe outra camada à viagem: depois de tantos lugares ligados à fé e às tradições da Geórgia, nos deparamos com um personagem que marcou a história do século XX, visitar a casa onde ele nasceu e o museu, me trouxe um sentimento estranho diante de tanta coisa boa que vivera até ali.

Perto dali, conhecemos Uplistsikhe, uma antiga cidade escavada na rocha. Caminhar entre aquelas construções e imaginar a vida acontecendo ali tantos séculos atrás foi uma experiência muito interessante. A Geórgia tinha esse efeito sobre mim: a cada parada, parecia revelar uma parte diferente de sua história.

Na sequência, seguimos em direção ao belíssimo Vale do Alazani, uma das regiões vinícolas mais conhecidas da Geórgia. Antes de chegar lá, paramos no Mosteiro de Bodbe, onde está enterrada Santa Nino. Depois de ouvir tanto sobre a importância dela para os georgianos, estar naquele lugar deu ainda mais vida à história que vínhamos conhecendo ao longo da viagem.

O dia continuou com uma experiência que reuniu tudo o que eu mais gosto em uma viagem. Aprendemos como é feito o vinho georgiano, participamos de uma bela degustação e tivemos um almoço muito autêntico na casa de uma família local. Provar a comida preparada ali e compartilhar aquele momento foi uma forma de conhecer a Geórgia por dentro: por suas tradições, seus sabores e, principalmente, por suas pessoas.

Acordamos bem cedinho e seguimos de ônibus rumo à fronteira com a Armênia. Confesso que atravessar uma fronteira terrestre sempre provoca aquele pequeno momento de tensão, mas, para nossa surpresa, tudo foi muito rápido e tranquilo. Nossa guia, Aní, foi extremamente ágil e organizada, facilitando toda a travessia.

Logo nos primeiros quilômetros, começamos a perceber algumas diferenças em relação à Geórgia. A infraestrutura mais simples e algumas construções revelavam um país com desafios econômicos importantes, ainda marcado por décadas sob o domínio soviético e por uma história de conflitos.

Nossa primeira parada foi na região de Dilijan, conhecida como a “Suíça da Armênia”, por suas montanhas cobertas de florestas e paisagens exuberantes. Visitamos um belíssimo mosteiro em meio à natureza e seguimos viagem rumo a Yerevan, a capital armênia.

E foi justamente Yerevan uma das maiores e mais agradáveis surpresas de toda a viagem.

Que cidade vibrante! Confesso que não esperava encontrar uma capital tão cheia de vida, com restaurantes movimentados, cafés lotados, praças animadas e uma atmosfera tão agradável, especialmente à noite.

Talvez o que mais tenha me impressionado tenha sido justamente esse contraste entre o passado tão sofrido do país e a alegria que encontramos nas ruas.

A Armênia carrega cicatrizes profundas. O genocídio armênio, iniciado em 1915, durante o Império Otomano, marcou para sempre a história desse povo. Décadas depois, vieram os desafios do período soviético, além de conflitos territoriais e dificuldades econômicas que ainda fazem parte da realidade do país.

Visitamos o Museu e Memorial do Genocídio Armênio, uma experiência emocionante e necessária, daquelas que nos fazem refletir sobre a capacidade humana de provocar tanto sofrimento.

Mas foi caminhando pelas ruas de Yerevan que tive uma das percepções mais marcantes da viagem.

Muitas vezes, quando estudamos a história de um país, conhecemos suas guerras, tragédias e conflitos, mas pouco sabemos sobre as pessoas que vivem ali. E viajar nos proporciona justamente essa oportunidade de enxergar além dos livros e das notícias.

Na Armênia, encontrei um povo orgulhoso de suas origens, profundamente ligado à sua fé e às suas tradições, mas que também demonstra uma vontade enorme de viver, reconstruir e olhar para o futuro.

Não significa que os problemas tenham ficado para trás. Eles continuam existindo. Mas a sensação que tive foi a de um país que se recusa a ser definido apenas pelas dificuldades que enfrentou.

Cheguei à Armênia esperando conhecer um país marcado pelo sofrimento e fui embora admirando um povo que faz questão de celebrar a vida.

E essa talvez tenha sido uma das maiores lições de toda a nossa viagem pelo Cáucaso.

Durante nossa passagem pelo país, conhecemos também alguns dos monumentos religiosos mais importantes da Armênia, considerada a primeira nação do mundo a adotar oficialmente o cristianismo, no ano de 301.

Visitamos o Mosteiro de Khor Virap, ligado à história de São Gregório, o Iluminador, e de onde tivemos a oportunidade de avistar o imponente Monte Ararat. Embora esteja atualmente em território turco, a montanha continua sendo um dos maiores símbolos da identidade armênia, além de estar associada à tradição bíblica da Arca de Noé.

Outro lugar espetacular foi o Mosteiro de Noravank, cercado por impressionantes montanhas de rochas avermelhadas. Conhecemos ainda o Mosteiro de Geghard, Patrimônio Mundial da UNESCO, com parte de suas igrejas escavadas diretamente na rocha, e o Templo de Garni, uma construção greco-romana do século I que revela a riqueza histórica da região.

Cada um desses lugares nos ajudou a compreender um pouco mais a importância da religião na formação da identidade armênia.

A cultura também teve seu espaço especial na viagem. Em Yerevan, assistimos a um belíssimo espetáculo de balé, uma experiência que evidenciou a forte tradição artística do país, influenciada também pela cultura russa.

E, para encerrar nossa passagem pela Armênia, tivemos uma noite especialmente divertida. Fomos a um bar com música ao vivo, onde brindamos aos dias que havíamos compartilhado. Entre conversas, risadas e muita descontração, ainda tivemos uma leitura de poesia dedicada ao nosso grupo, um momento engraçado e espontâneo que certamente ficará na memória de todos.

Saí da Armênia com uma impressão muito diferente daquela que tinha antes de chegar. Encontrei um país de contrastes, com uma história dolorosa, paisagens surpreendentes, uma fé profundamente enraizada e uma capital cheia de energia.

Mas, acima de tudo, encontrei um povo que, apesar de tantas adversidades, demonstra uma impressionante capacidade de seguir em frente.

E talvez seja exatamente isso que mais me fascina em viajar: descobrir que, por trás de cada destino, existem histórias, pessoas e sentimentos que nenhum livro ou fotografia consegue transmitir por completo.

A Armênia foi, sem dúvida, uma das grandes surpresas dessa jornada pelo Cáucaso.

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